Cláudia Amorim
2 Maio, 2010
Não consigo dizer-te adeus… Ouve o CD e compreenderás. Desculpa.
A porta do quarto fechou-se, deixando, apenas, o peso da sua ausência. Até nisso eram semelhantes, pensou. Ela também sempre se exprimiu pelas músicas que gostava. Há sempre uma música para cada momento das nossas vidas, basta estarmos atentos.
Durante uns dias, o CD ficou em cima da secretária, onde ele o tinha deixado. O vazio era demasiado profundo e não havia explicação possível para aquela atitude. Ela sabia que nunca iria durar, mas havia sempre aquela réstia de esperança, aquela vozinha que dizia que finais felizes eram possíveis… Não foi este o caso.
A curiosidade e a necessidade de voltar a estar com ele, de sentir a sua presença, de compreender o porquê acabaram por vencer. Colocou o CD no leitor e lá estava ela. Por entre Doors e Pink Floyd, os favoritos dele, estava Be my downfall, a música que ela tão bem conhecia. Tantas vezes tinha brincado com ele, dizendo que aquela letra era a história deles. Era a private joke partilhada pelos dois, uma música só deles e para eles. E ele tinha-a transformado na sua despedida. Acabou por se aperceber das lágrimas quentes a escorrerem pela sua cara quando ouviu os soluços que as acompanhavam.
É impossível explicar a atracção física por alguém. Na primeira noite em que estiveram juntos, poucas palavras foram ditas. Não havia espaço para palavras desprovidas de corpo e significado. Os lençóis, a cama, todo o quarto, estavam cheios pela ânsia, pela dor, pelo prazer que emava dos dois corpos suados. No mundo partilhado apenas por ambos havia só os murmúrios angustiados, as mãos ávidas, as bocas e hálitos quentes em seres que se confundiam um no outro, outra e outra e outra vez… O tempo não existia e quando finalmente adormeceram exaustos, já o sol adornava mais uma bela manhã.
A paixão é como uma droga, um vício sem cura. A ausência de quem se quer deixa-te a ressacar pelo toque desejado, pelo cheiro da pele tantas vezes percorrida pelos teus dedos e lábios. A paixão faz-te esquecer dos limites socialmente estabelecidos. Faz-te dançar numa estrada deserta ou ir nadar para uma barragem, tendo por companhia a cumplicidade da lua cheia. Faz-te esquecer os amigos que estão na mesma mesa, os estranhos que te acotovelam na discoteca, o mundo à tua volta. A paixão faz-te gritar a plenos pulmões tudo o que te vai na alma, a felicidade e a mágoa, para o vazio daquele lugar só vosso, aquele onde sempre se encontravam, até quando não se queriam ver.
A verdadeira paixão é assim: quente, forte, furiosa, dolorosa e, acima de tudo, libertadora. Era como explodir em mil direcções diferentes e sentir que as moléculas do meu corpo regressavam para me reconstruir, mas um pouco diferente do que era. Por muito que tentasse voltar à minha existência anterior, o meu ADN havia sido irremediavelmente modificado. Eu já não era a mesma pessoa e, no entanto, nunca tinha sido e nunca mais fui tão verdadeira, tão eu própria.
Há oito anos que nos separámos e eu nunca mais o vi. Contudo e se fechar os meus olhos, ainda consigo sentir o seu hálito quente no meu pescoço, a sua pele nos meus dedos, ainda consigo saborear a sua língua na minha. Quando ouço uma das nossas músicas, ainda sinto os seus braços à minha volta, a solidez e doçura do seu abraço enquanto dançavamos juntos. Ainda sinto borboletas no estômago sempre que regresso ao nosso lugar. O homem em si resta como uma boa recordação, mas o desejo da paixão deixou no meu corpo a sua marca gravada a ferro quente.
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Obrigada, Sítio da Mulher, por publicarem o meu texto.
Ola Claudia, sei muito bem pelo que estas a passar porque ja me aconteceu a mim, mas a vida continua e quem ama aparece, nunca te esquças….fica bem
Estou a passar pelo mesmo,gostei muito do texto… Passem pelo meu blog e comentem se quiserem…
Obrigada, Elvira.
Obrigada, Alone. Irei ver o teu blogue, com toda a certeza.
Bem Cláudia, sem palavras. Escreves muito bem. Parabéns
Obrigada, Vanda.
Sem dúvida um texto muito bonito, muito marcante, muito intenso, muito emotivo.. Adorei o texto, as palavras simples mas ao mesmo tempo tão intensas… Gostei mesmo muito do texto.. sim, acho q, infelizmente ou nao, muitas pessoas passam por separações de pessoas tão importantes.. Mas o importante é pensarmos que existiu sim, acabou mas valeu a pena, certo? Que aprendemos com isso e que continuaremos a viver a vida.. se nos lembrarmos dessa pessoa, ainda bem, sorrimos, foi uma pessoa importante e ainda bem q atravessou a minha vida.. É dificil nao voltar a ver essa pessoa, esquecer nunca é solução, podemos pensar as vezes q nos apetecer, temos é q pensar q tb vamos ser felizes e q a nossa vida não depende apenas dessa pessoa, que a nossa vida é um resultado dos anos que passamos, dos anos q vivemos.. E que irá continuar
Tudo é possível, Nada é impossível.. Só temos é que saber enfrentar a vida com um sorriso na cara.. Já um poema chinês dizia “Sorri, ainda que o teu sorriso seja triste, pois mais triste que o teu sorriso triste, é a tristeza de não saber sorrir” <3
Gostei. Mais do que gostar, percebo muito bem. Estou a passar pelo mesmo e já lá vão quase 3 anos. Força.
Eu sei muito bem o que é essa ausência de alguém que virou o nosso mundo de pernas para o ar, de alguém que se apaixonou por todos os defeitos e qualidades ao mesmo tempo. São tatuagens que nunca mais voltam a sair do corpo..podem perder tons mas nunca se apagam totalmente. Saber que conseguimos ser um só, sem nada nem ninguém à nossa volta, ter coragem para tudo porque estamos totalmente cegas de paixao, adrenalina, desejo…as memórias vão e vêm sempre com diferentes intensidades…há dias que a ausencia é insuportável.. há dias em que conseguimos suporta la mas não sem dor da ausencia!
Faz este verão 4 anos que tudo aconteceu e só queria ter mais um dia de vida contigo e fazer te feliz como tu tanto repetes na minha cabeça..:|
Mas a vida é assim amiga, memorias ficam, mas a vida tem de continuar e quem sabes se apaixonar da forma como tu descreves te tao bem, sabe se apaixonar intensamente pela vida