Maria Salete Vaz
22 Março, 2010
Gerontofobia   O medo de envelhecerFoto: .Habeeba.

O medo de envelhecer talvez seja a condição maior que determina a sociedade na exclusão dos velhos.

As pessoas em processo de envelhecimento, representam uma “ameaça” constante à omnipotência da humanidade. Excluindo-as, não há necessidade de defrontar-se  com a realidade. É difícil para a humanidade assumir a sua própria fragilidade e efemeridade.

O que está por detrás deste medo?

Que imagem temos da velhice?

Desde pequenos, através da família, da escola, do meio social, incorporamos a velhice, o velho, como algo “desagradável”. Aprendemos a associar o velho com a morte. Em geral acompanhamos a morte dos nossos avós. Bisavô e bisavó, muitas vezes nem conhecemos. Fica internalizado que: avó(ô),bisavó(ô) é o fim; neto(a), bisneto(a) é o começo, a continuidade, a expressão maior das raízes de uma família.

“A visão do morto rompe com a negação mais importante e universal: finitude do homem”. Alberto Abuchaim

Eis aí o ponto cego.

Esta negação, é descrita por Simone Beauvoir, ao aludir o facto de que na América a palavra MORTO foi excluída do vocabulário. Segundo ela, fala-se em CARO AUSENTE, assim como evita-se falar em idade avançada, em qualquer circunstância. Na França, o assunto é proibido. Nos Estados Unidos, a classe dominante adopta a posição cómoda de não considerar os velhos como homens, conforme a mesma autora.

A negação à velhice está movida em grande parte, ao que ela representa, que é o oposto da “cultuada” ilusão da juventude eterna.

Os povos do Oriente não lutam contra a morte. A negação não faz parte de sua cultura.O velho é respeitado. Costumam sorver deles a sabedoria, com o objectivo de aprimoramento. Não costumam chorar e nem lamentar a morte. Ajudam os seus velhos no momento final, ficando próximos e escutando-os.

Lembrança atrai lembrança e seria preciso um escutador infinito…

Nem tão infinito, pois aquele que escuta, é finito e é mortal. Apenas, aquele que escuta, como no Oriente, é capaz de absorver do velho o que ele tem de melhor: a experiência vital.

O infinito, talvez esteja, na possibilidade de aproveitamento da experiência individual daquele que se vai, em prol daquele que vem.

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Comentários - Dê a sua opinião!
  • Joana Soares
    22 Março, 2010

    Só nas sociedades ocidentais, onde o exterior se sobrepõe ao interior é que os velhos são sinónimo de lixo, cruz ou qualquer outro adjectivo menos abonatório.

    A idade é um posto, pela sabedoria. Só em velhos somos sábios da maior escola do mundo, a escola da vida. Tomemos como exemplo os póvos orientais, culturalmente mais evoluídos, que escutam os seus velhos, conhecedores da licção da vida.

    É triste como povos considerados evoluídos tratam desta forma as pérolas da sociedade.

  • Maria Vidal
    22 Março, 2010

    Concordo com esta escrita muito erudita, a meu ver, mas a realidade prática é um pouco diferente. A verdade é que tudo meste mundo está vocacionado para venerar a juventude (e o oriente é sempre a eterna excepção)as televisões mostram as top models impecavelmente produzidas, com corpos esculturais e muitos efeitos photoshop. Ultimamente apareceu a Jane Fonda a dar a cara pelas peles mais maduras e a Dove com corpos roliços. Tudo começa no berço. E se as crianças ouvem os pais exclamarem: olha a velha a atravessar fora da passadeira ou os pivots de televisão a dizer idoso de 54 anos entrou em contra mão na autoestrada, etc. quem é que acredita que isto alguma vez vai mudar? E também devemos concordar que muitas mulheres lindas envelhecem mal e ficam desfiguradas por tanta plástica. Eu penso que o medo de morrer é o primeiro motivo de angústia para qualquer ser humano pois todos carregamos esse fardo.
    Mas não se pode eliminar o facto de as pessoas, outrora jovens e frescas, se horrorizarem ao olhar para o espelho e verem um rosto apagado, flácido e cheio de rugas que não favorece ninguém. Não é em vão que se gastam fortunas em produtos cosméticos. O nosso rosto pode atrair ou repelir. O corpo também decadente podemos disfarçar com algums truques de moda. Um rosto velho quando muito maquillado parece embalsamado.
    Devo confessar que não aceito o limite que a morte me vai impôr mas também tenho horror de olhar para o espelho e já não saber quem é aquela imagem que eu não escolhi mas que é genética.
    Resta acrescentar que por muito que se diga ou que se fale, “Este paía não é para velhos”, citando o filme com o Javier Bardem.

  • Maria Salete Vaz
    22 Março, 2010

    Olá Maria Vidal!
    Homens e mulheres sempre correram atrás da juventude, principalmente depois que atingem uma certa idade. Isto foi imortalizado no poema dramático de Goethe: Dr. Fausto vende sua alma a Mefistóles (diabo), para rejuvenescer e conquistar Margarida.
    Obrigada pelo comentário.
    Um abraço

  • 22 Março, 2010

    Eu penso que nós devemos saber envelhecer com serenidade.
    Claro que as nossas limitações e consequentemente a nossa aparência atormenta-nos um pouco,contudo todas as estapas da nossa vida têm o seu encanto.
    Gosto mais da serenidade que a idade me trouxe assim como da experência que hoje tenho.Pelo menos agora faço o que quero falo com quem quero e sou como quero.
    beijos luisa

  • Maria Salete Vaz
    22 Março, 2010

    Olá Joana Soares!
    Obrigada pelo comentário.

    Vou transcrever uma frase dita por um “velho” amigo sábio como todos os demais: “Aprendi que o segredo para se envelhecer com graciosidade é nunca perder o entusiasmo em conhecer novas pessoas e ver novos lugares”

    Um abraço

  • Maria Salete Vaz
    22 Março, 2010

    Olá Maria Luisa!
    Obrigada pelo comentário.
    Quando Buda era ainda príncipe Sidarta, encerrado por seu pai no palácio, dele fugiu várias vezes para passear de carruagem nas redondezas. Na primeira saída, encontrou um homem enfermo, desdentado, todo enrugado, encanecido, curvado, apoiado numa bengala, com alguma falta de equilíbrio e tremulo. Ficou muito espantado, e então perguntou ao cocheiro o que tinha aquele ser humano. O cocheiro explicou o que era um velho. O príncipe então exclamou: Que tristeza! Os seres fracos e ignorantes, embriagados pelo orgulho próprio da juventude, não veêm a velhice. Voltemos rápido para casa. De que servem os jogos e as alegrias, se eu sou a morada da futura velhice.
    Um abraço
    Maria Salete Vaz

  • Neuza Santos
    22 Março, 2010

    Pois é… A única coisa que temos certa na vida, é aquela de que fugimos, nos escondemos… tentamos com que não vejam a ruga, a flacidez… preferimos ficar sem férias mas ter uma pele esticada, tal qual como a de um bebé! Para além disso, muitos daqueles que atingem ‘metade’ da sua vida entendem que nada mais tem a aprender, sendo que só se passa experiência, só se ensinam lições de vida, se aprendermos e apreendermos tudo o que nos rodeia. Deveríamos dar mais atenção aos conselhos dos mais velhos, avós ou bisavós, mas essa falha também se deve à forma como a nossa sociedade se ‘reorganizou’. Antigamente, ficávamos com eles, passávamos as férias, éramos felizes e tinhamos respeito para com tudo e todos. Agora, se os vemos no Natal ou nos anos, só interessa se eles nos dão 20 ou 50€… somos mais infelizes, menos respeitadores e menos cultos, porque aquilo que eles nos ensinam, essas tais lições de vida, é cultura, pois são conhecimentos que fazem com que tomemos determinadas decisões!

  • 23 Março, 2010

    Uma excelente chamada de atenção para a questão da velhice, mas poderíamos ainda ver as implicações desastrosas que esse facto social acarreta às mulheres em especial…Não?
    Envelhecer tem a sua beleza natural e a mulher principalmente não precisa de fugir a esse facto como tantas vezes o faz. Podemos sim envelhecer com serenidade e confiança quando encontramos a paz e o equilíbrio dentro de nós…
    um abraço amigo

    rosa leonor

  • Francisco
    26 Março, 2010

    Olá! O equilíbrio psíquico passa pela aceitação do “pedaço” oposto que nos complementa, e assim, sendo homem, quero referir que o “pedaço” de ser feminino que me complementa ( que me recorda a minha amada Mãezinha e a todas as Mulheres que dignificam o seu nome ) deseja fazer 2 comentários; Todas falaram bem, envelhecer é digno, é lindo, mais lindo que envelhecer é ter-se amado ao ponto de “desenhar” o ser idoso que todos iremos ser um dia, e hoje, ainda jovens, tudo fazermos para virmos a ser “os velhotes” que vamos querer ser um dia, sem preconceitos inferiores, com a consciencia evoluída de Mulheres e Homens poderosíssimos, seres espectaculares que governam sobre tudo e todos os seres existentes;

    Envelhecer é imperativo, é como quando damos o lugar no autocarro a alguém que precisa de se sentar, envelhecer é tempo de preparação para dar o nosso lugar a outro ser que precisa nascer, é sorrir “na fila de partida”, tranquilos e felizes de termos feito o que devíamos, viver em Justiça, Verdade e Amor.

    Bem hajam pela lembrança quanto ás nossas anciãs e anciãos! Devemos exigir de nós o esforço para especializarmos nesta disciplina de vida tão linda, a gerontologia! Ao tratarmos dos nossos “velhotes” estamos a preparar outros para tratarem de nós!

    Vosso amigo! Francisco!

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